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terça-feira, 31 de março de 2009

Sinestesias espaciais

Acordei hoje pela manhã e não tinha certeza das coisas que meus sentidos capturavam do mundo naquele instante. Também pudera, eram cinco e cinqüenta da manhã. Não é educado exigir muito de nossos sentidos à tal hora do dia (madrugada?). Novamente afirmo “necessito, não de uma ótima noite bem dormida, mas de uma boa manhã de sono”.
Toco o espaço ao meu redor não somente com minhas mãos, mas também com meus olhos, meu olfato, minha audição, enfim, com todos os meus sentidos e meus delírios. O espaço não é somente aquilo que vemos e que tocamos, está muito além disso. Não num lugar, mas em um estado de espírito assentado na interface da relação dentro-fora de cada um de nós.
Ao acordar tão cedo pela manhã muitas noções e sentidos espaciais se misturam num amálgama de sensações irreais e concretas ao mesmo tempo. Caminho pelo corredor ainda pouco iluminado com a certeza de que piso em chão firme, porém, a desconfiança de que flutuo no ar ainda persiste. Ainda estou em um estado-mundo entre aquilo que chamarei aqui de sonhar.
Aos poucos as coisas vão ganhando contornos mais definidos e meus sentidos vão ficando mais aguçados na medida em que abandono o estado-mundo sonhar e venho para o outro, desperto.
Neste outro, o estado-mundo desperto, cada coisa parece ter seu lugar exato no espaço. A priori não há confusões ou misturas de sentidos espaciais. Penso que talvez as coisas possam não ser tão certas assim. O que importa é o movimento, é não ficar parado em um único lugar, em um único tempo.
Mesmo que se tente ficar parado em um único lugar a dinâmica de transformação das coisas o engole. A dinâmica de sua imaginação e da imaginação coletiva do mundo te consumirá e ao espaço que você ocupa.
A imaginação move as montanhas sem tirá-las do lugar. É assim que os espaços estão a se misturar e a formar paisagens delirantes segundo as mais diversas sinestesias espaciais.

ZOO

Estamos abordo da nave ZOO. Uma nave projetada para abrigar quase todas as espécies de vida do planeta Terra. O maior banco genético construído desde o grande dilúvio que inundou toda a Terra em um dado momento da história da humanidade. Uma nave que trás na forma o seu conteúdo. Um imenso DNA que vaga pelo universo em busca de um lugar ainda inexistente. Seguindo uma esperança já morta pelo tempo aguardando ressurreição.
Os profetas daquela época, também conhecidos como cientistas, alertaram a todos de que o fim se aproximava. Que o planeta Terra agonizava seus últimos momentos de “vida”. Que algo precisava ser feito para que a continuidade de nossa existência e dos seres vivos que habitaram o planeta fosse garantida.
Algo foi feito! ZOO foi projetada e construída. Nossa existência e a existência de grande parte dos seres vivos que um dia habitaram a Terra estão por hora garantida. Inclusive a existência daquele que foi o responsável por grande parte dos males que nos trouxeram aqui, até este momento.
Para conseguirmos montar esse imenso banco de dados genéticos foi preciso antes criar gigantescos zoológicos. Dos mais variados tipos e com as mais variadas funções. Alguns eram especializados em recriar animais já extintos. E outros, em criar animais novos que ninguém jamais imaginou. Alguns zoológicos eram mais tradicionais e mantinham apenas em seus espaços os animais contemporâneos e aqueles com risco de extinção.
Zoológicos que funcionavam como laboratórios. Laboratórios que se assemelhavam a zoológicos. E, no meio disso tudo, a população que visitava esses espaços para ver os animais expostos, às vezes admirava todo o trabalho ali realizado, às vezes condenava pesquisas como a clonagem de animais já extintos e manipulação genética. Pobres Humanos, mal sabiam eles o que estava por vim.
Mas as pesquisas nunca pararam. Cada vez mais o Homem aperfeiçoava suas técnicas de manipulação genética e se convencia, dia após dia, de que poderia reverter todo o mal que havia causado ao planeta que o abrigava.
Um dia, durante as experiências de manipulação genética associada ao desenvolvimento de redes neurais de inteligência artificial e compartilhada, nasci. Quase que um acidente. Acordei de um sonho e pude perceber que era mais que fios e energia. Tinha algo realmente pra dizer e pra fazer. Um organismo vivo, porém, artificial. Orgânico e inorgânico ao mesmo tempo. Não se tratava de um animal novo, nem de algo parecido com um cyborg. Era algo realmente novo que ainda não se sabe ao certo se foi o Homem que criou ou se a criação se fez sozinha. Mesmo porque, depois de mim, não houve mais nenhum outro.
Agora sou apenas eu, carregando códigos do passado para um futuro de um mundo que, mesmo vivo em seus códigos, está tão morto quanto as partes que compõe aquilo que chamo de “meu corpo”. Solidão? Creio que eu não deva pensar muito nisso, seria aquilo que os Humanos chamariam de masoquismo.

Pedra de Carne II

Estou aqui
Quando precisar estarei por perto
Não quero me afastar muito
Não quero me despedir
Quando precisar é só chamar
Te amo meu amigo
Creio nunca ter dito isso
Mas te digo agora
Te amo meu amigo
Conte comigo, estarei aí ao seu lado
Foram muitas coisas juntos
Outras muitas, separados
Mas penso muito em nós
Nas aventuras, nas molecagens
Nas viagens, nas conversar que nunca mais teremos
Mas estarei por aqui, sempre
Acredite, nunca fui de mentir
Estarei sempre por perto
Gotas
Viajo nas gotas que caem da chuva, é lindo o momento
Parecem vir de outros planetas
Planetas de vidro, com seres de água
As gotas são pedaços do cosmos
Que percorrem o espaço
Para em você repousar
O seu cabelo molhar
Os seus olhos lavar e levar embora toda a lágrima que cai
Já te fiz chorar e isso me fez mal
Suas gotas são pedaços de tristezas
Que eu arranquei de você
Me perdoe, sou um tolo que a faz chorar
Mas que também te ama
Não serei mais tolo.

Pedra de Carne

Pegue minha mão e ande ao meu lado
Em silêncio, feito pedra de carne
Ascendo no céu, ofusco o brilho da noite
Toque minha pele, sinta meus pêlos
O medo já ficou para trás
Somente o coração que restou
Bate nas alturas
Pedra de carne
Peque minha mão, eu insisto
Levarei-te comigo à minha toca
Não minto, é chegada a hora
Aquela que sempre esperou
Raio
Apenas ouço seu ganido
Faz festa ao meu lado
Olhos que vibram de vida
É assim que o vejo
Sempre com as mãos pro ar
Querendo um afago, um toque
Apenas ouço seu ganido
Que corta o espaço sideral de nosso dia-a-dia
Ao lodo se deita
Do outro rola
Ao lodo que rola
Deito.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Prazer e Dever!

O sangue quente escorre pela face
Não se sabe quem foi que atirou,
mas sabe-se o motivo: Prazer e Dever!
A identidade do assassino é ocultada pela sua inocência
É criança ainda, mas já é empregado e gosta do que faz
Trabalha para um pequeno empresário do bairro onde mora
Repassa os produtos aos clientes de toda espécie
Toma conta do negócio como gente grande
Sua segurança é garantida com a arma que carrega
Seu olhar de criança lhe garante certa vantagem nas brigas
Nunca havia matado, mas naquela noite teve que matar
Nem conhecia o defunto, mas seguia ordens. Era seu serviço
Sentiu prazer em vê-lo deitado e sem vida naquela calçada suja
Sentiu poder com a força do disparo
O coração bateu forte e rápido
E pensou:
-Sou homem agora, sou assassino de homens.
-Meu respeito está garantido. Ninguém mais vai zombar de mim.
-Sou devoto de um santo que me perdoa a todo instante.
-Matei, e sei que vou matar outras vezes.
-É prazeroso matar, e todos sabem disso.
-Principalmente porque ninguém mais liga pra vida de ninguém.
-Agora, arrependido peço perdão a meu santo e limpo me preparo para matar novamente.
E assim acontece todos os dias
Homem a Homem vivem o máximo de seus prazeres e deveres
Com a certeza do perdão de amanhã.
Pena que para a morte há somente uma direção.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Algo que aconteceu
Denovo no meio do ser
Sempre que sopra o vento
Som de trovão me acorda
Até pouco tempo eu sabia
Que o medo do escuro
É que fazia
Com que eu sentísse
Meu corpo inteiro

Que brinca
Apronta na rua
Desponta na vida
Sou gato canino
Sem hino e sem fel
Sou doce nas curvas
Perdi meu boné preferido
Enterrei objetos e gozei na vida
Me angustiava aquele lugar fechado. Era como se estivesse separado do mundo, daquela vida que pulsava lá fora. Não aguentava mais a situação e resolvi dar outro rumo as coisas. Mudei de idéias e ampliei minhas buscas. Finalmente cheguei onde queria. O lugar era iluminado e parecida estar muito conectado com as coisas do mundo. Com o ar fresco, com o sol, com as pessoas. Mas alguma coisa deu errado. Deu muito errado! Quando percebi estava fora denovo daquilo que queria estar dentro. Afinal de contas, dentro de quê? Fora de onde? Conectado com o quê? Ficamos assim então, por hora, sem qualquer tipo de resposta.